Mindfulness Meditation for Executives
25 nov 2020
Sabático como transição para uma vida mais autêntica
16 ago 2018
Carreiras-Bônus: Reinventando a carreira após os 50

Insights 16 ago 2018

Carreiras-Bônus: Reinventando a carreira após os 50

por Rafael D’Andrea, INSEAD Master in consulting and coaching for change.

Quando somos apresentados a alguém pela primeira vez, é comum perguntarmos: “O que voce faz?”. Isso acontece provavelmente por que parte da nossa identidade está ligada ao trabalho – “somos o que fazemos”. Pelo menos, foi o que me disse um dos executivos c-level que entrevistei para um estudo recente. E se de repente voce não precisasse mais trabalhar, o que faria?

Fiz essa pergunta para os ex-executivos e empresários bem sucedidos da minha amostra. Todos já tinham condições materiais de parar de trabalhar. A resposta foi uníssona: “continuar trabalhando”. Mas e quando o trabalho atual já não é mais tão estimulante?

 

E se o ambiente de trabalho já não for mais tão receptivo a profissionais da velha-guarda? Os meus entrevistados viveram esse tipo de situação e decidiram começar de novo, do zero.

 

Uma pesquisa pioneira sobre transições de carreira

Mesmo após os 50, é possível aprender uma nova profissão. Dizem que não é fácil ensinar truques novos a um cão velho, mas os profissionais que entrevistei em minha pesquisa se deram bem em suas transições tardias. Em minha pesquisa*, procurei entender como eles fizeram transições bem sucedidas para carreiras drasticamente diferentes das suas. Não me limitei a apenas entender a sequência de eventos, checagens, e desafios enfrentados. Na verdade, fui além, procurei entender quais teriam sido os possíveis drivers de decisão dessas pessoas relativamente ricas, para decidirem continuar em ocupações diferentes das que tinham, mesmo podendo parar. Para isso, analisei sob a ótica da psicodinâmica (de acordo à escola de coaching do INSEAD) o modelo mental por trás de cada escolha, e as motivações mais profundas que os moveram.

De fato, o tal estudo foi pioneiro. Havia gente analisando a crise de meia-idade, ou aposentadoria, mas não havia ninguém olhando desse modo para as transições de carreira nos estágios tardios da vida profissional.

 

Sem muita referência prévia, precisei dar um nome ao fenômeno. Então, eu o chamei de “Carreira-Bônus”, por sua natureza semelhante a um bônus no fim da carreira.

 

Casos de pessoas reais

Eu já tinha visto isso acontecer com meu próprio avô que faleceu aos 100 trabalhando. Ele teve 3 carreiras-bônus após os 50. Sem falar na carreira de pintor de quadros, quando já tinha mais de 80.

 

Sobre isso, Douglas Hall, um renomado autor escreveu: “as carreiras dão um senso de significado e propósito na vida. Elas são uma maneira de expressar o self.” Eu particularmente acho que talvez por isso desejamos sempre fazer o que amamos, para assim expressar o nosso amor de alguma maneira.

 

Há muitos exemplos de pessoas que optaram por continuar trabalhando – e mudaram de carreira – mesmo podendo seguir na mesma linha de atuação ou se aposentar. Fazendo a pesquisa, eu encontrei na EXAME, o caso de Jacques Lewkovitz, que aos 70 decidiu ser um estagiário no Google, depois de vender a sua agência, a Lew Lara. E então me perguntei: Porque? Como foi? Fiquei intrigado.

Se aposentar cedo já não é o paradigma vigente

Então, fui procurar a resposta para a seguinte pergunta: “Por que alguém desenvolveria uma carreira totalmente nova depois de ter tido sucesso em sua carreira anterior, ao invés de gozar os resultados de sua trajetória?”

A maioria dos estudos que encontrei se referiam às transições de meia-idade, um fenômeno que leva muitas pessoas a buscarem coerência no trabalho e harmonia entre a profissão e a vida pessoal. Mas isso não parecia ser o que havia motivado meus entrevistados. Ao cavar um pouco sobre o tema eu descobri que um grande paradigma dos anos 90 havia mudado. Hoje o sonho de consumo dos profissionais já não é mais se aposentar cedo e curtir a aposentadoria. Paradoxalmente, existe uma atitude pro-trabalho na terceira idade. Essa atitude é estimulada por governos de países desenvolvidos e por ONGs.

 

Vivemos mais tempo e com mais saúde física. E essa longevidade trouxe uma nova janela de possibilidades profissionais que se estende aproximadamente dos 50 aos 75 anos de idade.

 

O Novo paradigma desta Era é ser economicamente ativo o máximo possível. Mas será que qualquer trabalho serve? Pessoas exitosas em suas carreiras costumam ser muito exigentes quando ficam mais velhas. Ex-executivos de alto nível não se contentam com trabalhos-ponte (serviços transitórios, em geral na mesma linha de atuação, ou não, mas com menos responsabilidades) antes da aposentadoria definitiva.

Mas qual seria o “trabalho ideal”?

O trabalho desejado por esse público é um que traz significado, uma rotina flexível, a adrenalina de um novo desafio, diversão, novos conteúdos, novas relações pessoais, e também algo que seja consistente com os próprios valores, sem ameaçar a aceitação social da pessoa.

 

Esses profissionais não querem apenas estar ocupados, querem uma experiência de imersão no que fazem.

 

Alguns estudiosos explicam que estar imerso em uma experiência fluida pode neutralizar a sensação de passagem do tempo. Ora, a passagem do tempo se relaciona à noção de mortalidade. Então, pode ser mortalmente desagradável para um experiente CEO, por exemplo, ter que subitamente parar de trabalhar. Profissionais mais maduros desejam um trabalho que os absorva. Isso os faz sentirem-se revigorados.

Ser rotulado como obsoleto motiva mudanças de área

Por que alguém abandona uma carreira de sucesso no final da vida profissional? Os gatilhos mais comuns para deixar as carreiras anteriores foram identificados na minha pesquisa como causas relacionadas a discriminação etária no ambiente de trabalho.

 

O medo de ser estereotipado “como dinossauro” foi o que direcionou os participantes da pesquisa a pensar em campos alternativos para um recomeço.

 

Ao se reinventarem, os profissionais entrevistados buscaram satisfazer a motivação de evitar qualquer possibilidade de se tornar algo que não seria desejável. Por exemplo, ser visto por outros como alguém “desocupado” (= aposentado), ou como um profissional obsoleto. Por outro lado – o recomeço em uma nova carreira também se encaixou na motivação dos participantes de quererem se tornar mais aceitos socialmente.

 

Mais do que dinheiro, é importante nesta etapa da vida, ser visto como uma pessoa que, apesar da idade, continua mostrando “progresso” em suas empreitadas profissionais.

 

Tanto o self indesejável (do aposentado desocupado), quanto o desejado (o do homem maduro que continua progredindo) simultaneamente favoreceram a decisão por recomeçar em uma nova profissão.

Um fato curioso que eu descobri aponta para a infância. Parece que o trabalho idealizado na infância (ou seja, o que voce queria ser quando crescesse) pode também ter influenciado nas decisões de carreira nessa fase mais tardia da vida. Um dos entrevistados queria ser como Marco Polo quando criança. Sua carreira-bônus rumou naturalmente para a de professor. “Sou um contador de estórias na sala de aula”, disse ele. Outro empresário queria ser padre quando criança. Hoje dirige um centro de cura espiritual.

Conhecer as habilidades é mais importante do que ter domínio do conteúdo.

A questão comum que os participantes se perguntaram antes de mudar para a nova carreira foi: “será que eu tenho as habilidades para apreender e me adaptar ao novo trabalho? Ao invés de: “Será que eu sei como fazer as tarefas necessárias na nova profissão? Observei que o conteúdo do trabalho não era nem de perto tão importante para os participantes quanto suas competências necessárias para se darem bem no novo campo de atuação.

 

A expectativa de obter sucesso foi um driver fundamental para a decisão de qual nova carreira buscar.

 

Como resultado, a decisão sobre a ocupação na carreira-bônus pareceu estar relacionada a busca de linhas de atuação que demandassem as mesmas habilidades necessárias para obter sucesso no antigo trabalho. Algo que incrementaria as chances de sucesso no novo contexto. Assim, obter um resultado exitoso na nova área de atuação pareceu ser o fator mais saliente na decisão de mudança. Os participantes sabiam que poderiam aprender as habilidades requeridas pelo novo trabalho em um período razoável (afinal, não tinham tempo a perder).

Como acontece a transição?

Além das descobertas que eu citei, as entrevistas me permitiram criar um mapa das principais preocupações, checagens por suporte familiar, e gatilhos para largar o trabalho anterior, bem como os drivers para escolher uma nova careira, e estratégias de decisão envolvidas na transição.

 

Mapear o processo é importante, por que permite que outros profissionais percebam que não estão sozinhos em seus momentos de transição.

 

Os detalhes das 3 grandes etapas e suas divisões foram condensados na tabela abaixo, que se propõe a representar a essência do fenômeno, sem esgotá-lo.

Tabela: O processo de tomada de decisão em transições para carreiras bônus

 

Curiosamente, depois das entrevistas, eu recebi alguns feedbacks de participantes dizendo que o próprio ato de narrar as suas experiências para mim havia despertado reflexões inéditas neles sobre o significado de suas atividades atuais e passos futuros, incluindo a aposentadoria definitiva.

 

Pessoalmente, acredito que a busca de trabalho com significado só pode ser realizada com uma certa dose de auto-conhecimento.

 

Hoje em dia, o excessivo foco dos empregadores em conteúdo (ou seja, na descrição de cargos, educação superior, experiência prévia, etc.) não acessa o espectro completo do que uma pessoa tem de potencial para performar bem em uma nova ocupação. Conhecer as próprias fortalezas é mais relevante para o sucesso nas transições de carreira.

Contribuição para as pessoas em transição

 

Eu espero que minhas análises ajudem executivos em estágios tardios de carreira a tomarem decisões de transição que os façam mais felizes.

 

Com as hipóteses geradas pelo estudo, eu também espero poder ajudar pessoas que ainda não chegaram no final da carreira a se prepararem melhor para o futuro. E aos profissionais de RH e coaches que nos lêem, eu gostaria de ressaltar a importância de fomentar o auto-conhecimento dentro das organizações, usando para isso todos os instrumentos disponíveis em qualquer fase de carreira.

Agora Feliz Carreira Nova! Bom recomeço… e se quiser saber mais sobre o coaching de transição de carreira, ou sobre a pesquisa, visite: www.thinkingpartner.com.br

*Esse artigo foi inspirado pela thesis de mestrado: “Bonus Career Transitions” (INSEAD), escrito por Rafael D’Andrea e disponível na íntegra em: https://flora.insead.edu/fichiersti_wp/InseadEMCCCtheseswave18/83965.pdf

 

Sobre o autor

RAFAEL D’ANDREA

Rafael D’Andrea atua como líder, palestrante e advisor empresarial, contribuindo com indivíduos e empresas a realizarem mudanças de comportamento organizacional através de consultoria e coaching direcionado. De forma assertiva e sincera aplica um método baseado no apoio, encorajamento e questionamento dos modelos mentais, percepções e experiencias que influenciam as decisões. Sua formação principal em Mestre em Desenvolvimento Humano e Psicologia Organizacional (Coaching) pelo Insead (França-Cingapura) foi obtido com distinção. Tem 20 anos de carreira empresarial dos quais metade atuou como executivo e metade como empreendedor, consultor e business advisor. Em 2005 fundou o Grupo Toolbox – empresa focada em marketing services. Rafael foi coordenador e autor de vários livros em trade e shopper marketing, disciplina que lecionou na graduação da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Insper na área de Canais de Marketing, e na FIA. Desde 2014 também atua como business advisor da NZTE – New Zealand Trade and Enterprise (agência de desenvolvimento de negócios internacionais do Governo da Nova Zelândia, ligada ao Consulado Geral neozelandês no Brasil).

 

Compartilhe:

Veja também

Meditation for executives

Meditation for executives

5 successful business leaders that have used meditation to improve productivity, creativity, and business acumen   Jayson DeM…