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Sabático como transição para uma vida mais autêntica

Insights 16 ago 2018

Sabático como transição para uma vida mais autêntica

Por Rafael D’Andrea, EMCCC – INSEAD

Entre as várias motivações que levam as pessoas a considerar tirar um semestre ou ano sabático, neste artigo exploro duas situações comuns. Minha meta não é apresentar os “dez passos para um sabático de sucesso”, nem defender que uma licença não remunerada seja o caminho para a felicidade, mas sim provocar uma reflexão antes que seja tarde demais para a maioria de nós, executivos ou empresários.

Considere os seguintes cenários:

 

Tirando um período sabático por opção

Na última reestruturação da empresa em que trabalhava sua posição deixou de existir e você acabou sendo desligado junto com outros. Bem, a crise econômica do país pode não melhorar, o tempo está passando e você ainda não achou nada que valha a pena. Agora pensa em tirar um ano sabático.

 

Depressão pós-férias, sabático como uma necessidade da “alma”

Nas férias você teve a chance de refletir sobre o que realmente queria fazer da vida. E definitivamente não é o que você está fazendo hoje! As férias foram boas, geraram várias fotos gastronômicas para o Instagram, selfies no WhatsApp e check-ins no Facebook. Entretanto, secretamente você se sente insatisfeito. Desde que voltou vem sofrendo de “depressão pós-férias”. Agora, sente a necessidade de tirar um sabático para concluir o que começou a refletir no período de descanso.

Se encaixou nesses cenários? Conhece alguém que está vivendo essa realidade – e se identifica com a pessoa? Se a resposta é sim, continue a ler este artigo.

 

A crise da meia-idade vem mais cedo

Em razão da pressão pela qual passamos no dia a dia e da velocidade das mudanças no ambiente de trabalho cada vez mais cedo nos deparamos com o que se costumava chamar de “crise da meia-idade”.

Estudiosos da Europa e também do Brasil apontam para uma antecipação de, pelo menos, cinco anos na crise da meia-idade. Nos dias atuais ela tem começado antes mesmo dos 35 e vem se caracterizando pelo conflito de valores entre o profissional e a empresa, ou pela ambivalência nas decisões profissionais para as quais o investimento anterior de tempo e esforço torna a mudança penosa. Ou seja, a crise surge da dúvida. É claro que muitos altos executivos preferem a ação à reflexão, como aponta o professor Manfred Kets de Vries, do INSEAD, em seu livro “Sex, Money, Happiness and Death. The Quest for Authenticity”. Esses profissionais acabam se defrontando com seus conflitos internos muito mais tarde na vida, quando é difícil demais mudar.

De volta aos nossos cenários: saiba que não há motivo para pânico. Se você se encaixou, parabéns! Isso significa que teve a chance de meditar sobre o que o faz feliz e finalmente a agarrou! Agora basta apenas prestar atenção e ir até o fim nos seus pensamentos, sem se deixar levar de novo pelos seus “desafios externos”, esquecendo que a sua felicidade é o mais importante.

 

Se você realmente pensa em tirar um período sabático para rever a vida, então existem quatro coisas que deve levar em consideração. São elas:

 

1) é estressante dissociar-se de sua antiga identidade profissional/pessoal (você não vai conseguir “relaxar” no início). O mais importante é experimentar novas atividades e testar as possibilidades;

2) você não precisa de muito planejamento, só os recursos suficientes para passar o período. Isso é importante para não se ver em uma situação em que precise voltar correndo para o trabalho depois de dois meses “parado”;

3) você não precisa de um sabático muito longo. Mas esse período precisa ser maior do que umas férias. Então, tire de 50 dias a um ano para seus “experimentos”;

4) nós adoramos a nossa identidade idealizada do que poderíamos vir a ser. Normalmente não queremos abandoná-la, pois trata-se de uma utopia, um sonho que tivemos há muito tempo. A transição que resulta da nossa reflexão, com ou sem a ajuda de um sabático, nos leva para um caminho desconhecido e novo. Essa transição pode ser desorientadora para a maioria das pessoas. É comum nos sentirmos perdidos, pois estamos familiarizados com o nosso antigo “eu” e ainda não nos tornamos o nosso novo “self”. Portanto, um sabático pode funcionar como uma espécie de zona neutra*, um espaço de transição, que precede o renascimento da nova identidade.

 

Experimentar é a chave

Quando temos tempo, podemos experimentar novas atividades profissionais. É comum fazer de um hobby, ou um trabalho voluntário, nossa ocupação principal. Isso nos ajuda a testar novos papéis. Por exemplo, se você sempre quis fazer um curso de culinária e nunca teve tempo, durante um sabático faça-o. Aproveite para tentar trabalhar num restaurante. Pode ser em Milão ou em São Paulo, onde quiser, mas aprenda com a experiência. Não importa se você foi um diretor de um grande banco na “vida passada”, coragem! Você não é o seu trabalho. Parece tolo, mas você é você, ou seja, um conjunto de experiências e conclusões, não o que você faz, simplesmente!!! Ao testar novas possibilidades, você se tornará alguém maior do que era antes, uma nova pessoa. Mesmo que volte a fazer o que já fazia, essa experiência o transformará para sempre. E poderá até ser útil no futuro, quando se aposentar (…ou você pensa que conseguirá ficar “parado” dos 55 aos 75 anos?).

 

Não exagere no planejamento

Não perca tempo fazendo uma lista do que pode e do que não pode fazer. Simplesmente comece com o que tem! Estude novos campos de conhecimento, faça novos contatos, viaje. Mas atenção: viajar apenas para fugir da angústia não é muito útil no processo. E custará caro! Você pode usar as férias para fazer o Caminho de Santiago, mas não desperdice tempo e dinheiro apenas viajando no seu sabático se o seu objetivo for mudar de vida. Senão, aproveite o sabático para ir a todos os lugares em que sempre quis.

Se você tirou um sabático e sente que precisa de tempo para esquecer o emprego anterior, ou afastar-se do passado, muito bom! Considere a viagem como o início de um processo de mudança, como suas merecidas férias. Mas acima de tudo, não esqueça que a viagem é só uma parte da jornada.

Um sabático bem vivido cria um “curto-circuito” na identidade, porque o tira do papel que está acostumado a viver. É comum ver um CFO tornar-se muito mais brincalhão e juvenil durante um período de estudos no exterior. Esse processo o tornará mais criativo, desapegado e flexível para enfrentar o mundo quando voltar.

 

Fuja das soluções prontas

Comece o quanto antes a mudar. Use suas pequenas pausas para novas vivências. Vale a pena explorar bem os “shortfridays”, feriados, férias e licenças como período de testes, antes de tirar um sabático mais longo. Não tenha preguiça, nem medo de se expor. A mudança em direção a uma vida mais autêntica e cheia de significado exige coragem e esforço. Um coach profissional ou um thinking partner poderá ajudá-lo a repensar os caminhos. Mas atenção para os testes de personalidade e “instrumentos” demasiadamente padronizados. Há muitos deles na Internet e alguns “enlatados” bem famosos vendidos para o mundo corporativo como se fossem a quintessência da sabedoria. Eles são instrumentos de autoconhecimento, sem dúvida nenhuma, mas não fique somente neles, pois são muito bons para provocar mudanças e torná-lo mais produtivo no que você faz, mas não são os mais adequados para quem atingiu a crise da maturidade e deseja mudar. Você sabe que, ao final do dia, a direção só você poderá dar.

Bom recomeço!!!

 

English version: https://www.linkedin.com/pulse/sabbatical-transition-towards-more-authentic-life-rafael-d-andrea/

 

Referências bibliográficas em que esse artigo foi baseado:

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